A revelação de Deus ao gênero humano.

agua em vinho No conceito de um Deus que se revela, está inerente a realidade de um Deus que se encontra plenamente cônscio da própria existência. Cornelius Van Til descreve o conheci­mento que Deus tem de si mesmo como analítico: "conheci­mento que não é obtido mediante a referência a algo que existe fora da pessoa que o exerce".7 O conhecimento que Deus tem de si mesmo não proveio de comparar-se, ou contrastar-se, com algo fora de si mesmo: "Deus possuía em si mesmo todo o conhecimento desde toda a eternidade. Portanto, todos os conhecimentos que qualquer criatura finita poderia ter de Deus, quer a respeito dEle, quer a respeito do próprio universo criado, teriam de depender da revelação de Deus".8

O Deus absoluto e eternamente consciente de si mesmo tomou a iniciativa de se tornar conhecido à sua criação.

A revelação que Deus fez de si mesmo foi um autodesvendamento deliberado. Ninguém forçou a Deus a se tornar conhecido; ninguém o descobriu por acidente. Num ato voluntário, Deus fez-se conhecido aos que, de outra forma, não poderiam conhecê-lo. Emil Brunner enten­de que a auto-revelação divina é uma "incursão de outra dimensão", trazendo conhecimentos "totalmente inacessí­veis às faculdades naturais que o homem possui à pesquisa e à descoberta".9

A humanidade finita deve lembrar-se de que o Deus infinito não pode ser encontrado à parte do próprio convite para o conhecermos. J. Gresham Machem levanta graves dúvidas contra os deuses que os homens criam:

Um ser divino que pudesse ser descoberto mediante os meus própri­os esforços, independentemente de sua vontade graciosa de se revelar… seria, ou um mero nome para certo aspecto da própria natureza huma­na, um deus encontradiço dentro de nós mesmos, ou, por outro lado… uma coisa meramente passiva, sujeita à investigação assim como as substâncias que são analisadas no laboratório… Devemos estar mais que certos de que não podemos conhecer a Deus a não ser que Ele tenha decidido revelar-se a nós.10

No livro de Jó, a resposta à pergunta de Zofar a respei­to da possibilidade de se sondar os mistérios divinos é um "não" em alto e bom som (Jó 11.7). Mediante nossas própri­as pesquisas, à parte daquilo que Deus revelou, nada poderia ser descoberto a respeito dEle e de sua vontade, nem sequer de sua existência. Pelo fato de o infinito não poder ser desvendado pelo finito, todas as afirmações humanas a res­peito de Deus acabam sendo perguntas em vez de firmarem como declarações. "As mais sublimes realizações da mente e do espírito humanos não bastam para chegarem ao conheci­mento de Deus".11

O ser humano jamais progride além desta realidade: o que Deus revelou pela própria vontade estabelece os limites de todo o conhecimento a respeito dEle. A revelação divina destitui todas as alegações do orgulho, autonomia e auto-suficiência humanos. O Deus do Universo tornou-se conhecido; a maneira certa de acolhermos tal iniciativa é reconhecer esta revelação. Ele determinou qual seria essa revelação, a forma que ela teria e as várias condições e circunstâncias exigidas para recebermos a sua auto-revelação. A comunicação de si mesmo foi determinada exclusivamente pelo próprio Deus.

Deus determinou as ocasiões da sua revelação. Não se revelou de uma só vez, mas optou por revelar-se paulatina­mente no decurso de muitos séculos. "Havendo Deus, anti­gamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais" (Hb 1.1). Mesmo para Deus há "tempo de estar calado e tempo de falar" (Ec 3.7). Ele se revelou quando estava pronto para isso, quando achou por bem fazer conhecido o seu nome e os seus caminhos (Ex 3.14,15).

Até mesmo a maneira de Deus se revelar – ajudando os seres humanos a compreender a sua natureza, caminhos e o seu relacionamento com eles – também foi por Ele determi­nada. As vezes, o método era externo, tal como uma voz, um evento, uma nuvem ou um anjo. Em outras ocasiões, a revelação era interna: um sonho ou visão (Ex 13.21,22; Nm 12.6; Dn 9.21,22; At 9.3,4). Seja de modo externo ou inter­no, era sempre Deus quem revelava; Ele escolheu a maneira de revelar a sua verdade.

Semelhantemente, Deus determinou o local e as circuns­tâncias da sua revelação. Fez-se conhecer no jardim do Éden, no deserto de Mídia e no monte Sinai (Gn 2.15-17; Ex 3.4-12; 19.9-19). Nos palácios, nos campos e nas prisões, Ele tornou conhecida a sua Pessoa, bem como seus caminhos (Ne 1.11; Lc 2.8-14; At 12.6-11). Quando o ser humano busca a Deus, só consegue achá-lo segundo as condições por Ele estabelecidas (Jr 29.13). Deus determina até mesmo quem receberá a sua revelação, quer se trate de pastores ou reis, quer de pescadores ou sacerdotes (Dn 5.5-24; Mt 4.18-20; 26.63,64).

O conteúdo da revelação divina é aquilo que Deus que­ria fosse comunicado – nada mais, nada menos que isso. Todas as considerações a respeito de Deus não passam de mera especulação à parte do que Ele mesmo revelou. Karl Barth descreve Deus como aquele "para quem não existe caminho nem ponte, a respeito de quem não poderíamos dizer… uma única palavra se Ele, por sua própria iniciativa não viesse ao nosso encontro".12 A partir da revelação inicial que Ele fez de si mesmo, e por toda eternidade, Carl F. H. disse que "o Deus da Bíblia é totalmente determinativo no tocante à revelação".13

A revelação, proveniente e determinada por Deus é, portanto, uma comunicação pessoal. Tem sua origem num Deus pessoal, e é acolhida por uma criação pessoal. Deus se revela não como alguma mera força cósmica ou objeto inani­mado, mas como um ser pessoal que fala, que ama, e que se importa com a sua criação. Ele despreza "outros deuses" que não passam de obra das mãos do artífice (Is 40.12-28; 46.5-10). Pois Ele se revela em termos de relacionamentos pesso­ais, e se identifica por designativos tais como Pai, Pastor, Amigo, Guia e Rei. E nesses tipos de relacionamentos pesso­ais que os seres humanos têm o privilégio de conhecê-lo.

A revelação de Deus é uma expressão da graça divina. Deus jamais sentira-se constrangido por qualquer necessida­de a revelar-se. A perfeita comunhão entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo não carecia de nenhuma suplementação ex­terna. Pelo contrário: Deus se deu a conhecer aos seres humanos, visando o próprio bem destes. O maior privilégio do ser humano é poder conhecer a Deus, glorificá-lo e des­frutar para sempre de sua presença.14 Essa comunicação pri­vilegiada reflete o amor e a bondade de Deus que, graciosa­mente, deu-se a conhecer. Emil Brunner considera maravi­lhoso e estupendo que "o próprio Deus haja dado de si mesmo pessoalmente a mim; somente dessa maneira, posso entregar-me a Ele ao aceitar a doação de si mesmo a mim".15

Carl F. H. Henry chama a atenção para as expressões "a vós, a nós" da revelação divina, quando Deus nos traz a boa nova, de valor incalculável, de que Ele chama a raça huma­na à comunhão com Ele.

O propósito de Deus, na revelação, é que o conheçamos pessoal­mente conforme Ele é, que aceitemos seu perdão gracioso e sua oferta de uma nova vida, que sejamos libertos do julgamento catastrófico em consequência de nossos pecados, e que entremos na comunhão pessoal com Ele. Ele declara; "Eu vos serei por Deus, e vós me sereis por povo" (Lv 26.12).16

Deus na sua misericórdia, continua a revelar-se à humanidade caída. Andar com Adão e Eva no paraíso ajardinado foi bondade dele, mas chamar ao perdão e à reconciliação os pecadores teimosos e contumazes revela amor bem maior (Gn 3.8; Hb 3.15). Seria compreensível que a revelação graciosa de Deus terminasse com a colocação da espada de fogo no Éden, na fabricação do bezerro de ouro pelos israelitas, ou na rude cruz do Calvário. A revelação de Deus, no entanto, é redentora no seu caráter. "O Deus invisível, ocul­to e transcendente, a quem nenhum homem viu nem poderá ver, revelou-se na vida humana a fim de que os pecadores se aproximassem dEle".17

A dádiva suprema que Deus oferece à raça humana é o convite para que todos o conheçam pessoalmente. "Tu nos criaste para ti mesmo, e o nosso coração está inquieto até que ache repouso em ti".18 Conhecer a Deus, mesmo um pouco, é desejar conhecê-lo melhor. "Pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo Jesus" (Fp 3.8).

Fica óbvio: a revelação que Deus fez de si mesmo visa o benefício do ser humano. Isso não quer dizer, porém, que a revelação divina, por si só, garanta uma resposta positiva a Deus da parte de quem a recebeu. "Precisamente porque a revelação divina visa o benefício do homem, não ousamos obscurecer o seu conteúdo informativo, nem pensar erroneamente que a revelação divina outorga a salvação automática de quem a possua. Ouvir as boas novas reveladas por Deus não nos redime automaticamente".19

A revelação divina é uma proclamação de vida, mas quando rejeitada, é uma proclamação de morte (Dt 30.15; 2 Co 2.16).

Graciosamente, Deus revelou-se a si mesmo, bem como os seus caminhos ao ser humano. Sua auto-revelação abran­ge os séculos; é variada na sua forma, e oferece comunhão privilegiada com o Criador. Essa revelação abundante, toda­via, não esgotou o mistério do Deus eterno. Há aspectos de sua Pessoa e do seu propósito que Ele optou por não tornar conhecidos (Dt 29.29; Jó 36.26; SI 139.6; Rm 11.33). A retenção deliberada de tais informações serve-nos de lem­brança: Deus transcende a própria revelação. O que Deus não revelou está além das necessidades e possibilidades da descoberta humana.

A revelação tem sua base, mas também os seus limites, na vontade de Deus… Os seres humanos universalmente não possuem recursos naturais para delinearem a natureza e a vontade divina. Nem sequer os dotados de capacidades especiais, ou de notáveis qualidades religiosas, poderão, mediante as próprias capacidades, aprofundar-se nos segredos do Infinito… e esclarecer, com o próprio poder e iniciativa, os mistérios da eternidade.20

As bibliotecas estão cheias de explicações acerca da auto-revelação de Deus, mas não se deve considerar que tais dissertações acrescentem algo à Sua revelação. A exemplo de João Batista, somos chamados a testificar da luz, e não para criar nova luz (Jo 1.7).

Em todos os aspectos, Deus mantém o domínio total sobre a própria revelação. Não é prisioneiro da majestade de sua própria Pessoa a ponto de nem sequer poder se revelar. Ele pode selecionar o que é revelado. Assim como determina o conteúdo e as circunstâncias da sua revelação, também determina a extensão da revelação. A limitação consciente que Deus impõe à sua revelação reflete a natureza de sua Pessoa. "Embora Deus se revele na sua criação, Ele não deixa de transcender ontologicamente (no tocante à sua existência) o universo, como seu Criador, e também trans­cende o homem epistemologicamente (no tocante à nature­za e limites do conhecimento humano)".21 O Deus da Bíblia não é panteísta; Ele se revelou à sua criação como Criador -uma revelação separada e voluntária que está inteiramente sob seu controle.

Embora os seres humanos não hajam esgotado total­mente o conhecimento de Deus, tal revelação não é incom­pleta no que diz respeito às nossas necessidades básicas. O que Deus já revelou é suficiente para a nossa salvação, aceitabilidade diante dEle, e para a nossa instrução na justi­ça. Mediante a revelação divina, podemos conhecê-lo e cres­cer nesse conhecimento (SI 46.10; Jo 17.3; 2 Pé 3.18; l Jo 5.19,20).

O Deus inexaurível continuará a transcender a sua reve­lação. Somente no céu é que lograremos alcançar, dEle, um conhecimento maior e mais completo (l Co 13.12). Uma das alegrias celestiais será o desdobrar, durante toda a eternidade, de maiores entendimentos da pessoa divina e de seus modos, sempre graciosos, em lidar com os redimidos (Ef 2.7). O fato de agora conhecermos apenas "em parte" não altera, contudo, a validade, a importância e a fidedignidade da revelação divina em nosso dia-a-dia.

Tratando-se da revelação divina, o Deus da Bíblia colo­ca-se em marcante contraste com os deuses do paganismo politeísta. Ele não é nenhuma deidade local que está a dispu­tar, com outras, as lealdades dos adoradores. Não é um ídolo mudo lavrado em madeira ou pedra. Tampouco é a voz projetada dos líderes políticos que revestem suas idéias com a mitologia religiosa. Pelo contrário: Ele é o único e verda­deiro Deus; é o Senhor de todo o Universo. A revelação de sua vontade é lei para todos os povos. Ele é o Juiz de toda a terra (Gn 18.25; SI 24.1; Rm 2.12-16).

Walther Eichrodt discorre sobre a possibilidade linguísti­ca de se interpretar o Shema hebraico: "Yahweh nosso Deus é o único Deus" (Dt 6.4), indicando que Yahweh não é um Deus que possa ser dividido em várias deidades ou poderes da mesma maneira que os deuses cananeus.22 Quando Ele fala, há uma só voz; não há lugar para mensagens confusas ou conflitantes. Embora Deus possa optar por revelar-se através de vários meios, e falar através de muitas pessoas, a mensagem permanece sendo dEle só; fica evidente a conti­nuidade e coerência desta. Na revelação divina, não há revelações com duplo sentido, ou rivais, mas uma unidade compreensiva que flui de um só Deus – o único e verdadeiro Deus.

Conseqüentemente, a verdadeira revelação divina tem seu aspecto exclusivo. Henry sugere dois perigos que amea­çam sua exclusividade. O primeiro: ver a experiência huma­na sob o aspecto sobrenatural nas religiões não-cristãs como se fora revelação divina válida. Tais religiões não falam com a voz de Deus, mas com a de Satanás e seus demônios (l Co 10.20). Algumas delas até mesmo negam o fator indispensá­vel da revelação divina genuína: a existência pessoal de Deus. O segundo perigo: a tendência de se reconhecer fontes adicionais de revelação independente (tais como o raciocínio e a experiência humanos), e colocá-las lado a lado com a revelação feita pelo próprio Deus. Não obstante o raciocínio humano capacitar-nos a tomar conhecimento da verdade divina, o raciocínio não é uma nova fonte originária da verdade.23 Semelhantemente, podemos experimentar a ver­dade divina, mas a nossa experiência não a cria. Nossa teologia não deve edificar-se sobre a experiência subjetiva, mas na palavra objetiva de Deus. Nossa experiência deve ser julgada pela palavra. Sejamos como os bereanos que "de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escri­turas se estas coisas eram assim" (At 17.11).

texto de John Higgins

Cadu
Siga-me

Cadu

Nossos dias são cheios de desafios que, se aproveitados, transformam-se em oportunidades relevantes para obtermos resultados. Tecnólogo, Jurista, Teólogo e SEO do Multiplicador de Conhecimento.
Cadu
Siga-me