Profetas : o pecado e o arrependimento

Os profetas denunciam o pecado em termos decisivos, mas não deixam de insistir no valor do arrependimento. Amós, apesar do realce que dá à justiça inexorável, em nome de Deus incita Israel a procurá-lo para viver (#Am 5.4). Oséias alude à bondade divina e apela continuamente para que voltem para Aquele que é todo bênção e todo perdão (#Os 14). Jeremias, seguindo as pisadas de Oséias, proclama em termos ameaçadores a condescendência e a compaixão de Deus (#Jr 3.12). Isaías, cujo conceito de Deus é o mais elevado, declara que o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, habita também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos (#Is 57.15). Noutro lugar frisa que Deus é grandioso em perdoar (#Is 55.7). Também Ezequiel, que tão profundamente descreveu a majestade e a santidade de Deus para os exilados, assevera-lhes que esse Deus não deseja a morte do ímpio, mas que se converta dos seus pecados e viva (#Ez 18.23). Tais mercês nem só a Israel são reservadas. Estranhos, como Ebede-Meleque, podem entrar na aliança e participar das bênçãos divinas (#Jr 39.15 e segs.; #Is 56.4-7) e até os confins da terra são convidados a procurar a salvação de Deus (#Is 45.22).

Como orientadores ou chefes espirituais e religiosos, os profetas não tinham que escolher entre o seu Deus e a bondade. A doutrina que pregavam acerca do homem e dos seus problemas dependia diretamente da maneira como criam em Deus. Antes de tudo eram teólogos; e só em segundo lugar mestres e orientadores morais. Como Isaías, todos eram pecadores que alcançaram misericórdia e obtiveram o perdão, graças ao poder divino nele manifestado. Depois de pregarem Deus, a sua principal missão era a de convencer os homens de que eram pecadores, que deviam arrepender-se e deixar-se guiar pelo caminho da justiça. Por isso, as obras dos profetas não se apresentam como tratados sistemáticos, tal como os dos moralistas gregos. A doutrina dos profetas era de caráter acidental, a maior parte das vezes apresentada negativamente, na descrição e na denúncia do pecado. São, todavia, numerosos os casos de afirmações positivas, por exemplo em #Mq 6.8, onde se resumem os principais deveres a cumprir.

Ao tratarmos do aspecto moral dum corpo de doutrina, é costume considerar-se o que se entende por sumo-bem, ou ideal; por virtude e por dever. Observando a doutrina moral dos profetas, fácil será verificar, que o sumo-bem é apresentado sob várias formas. Umas vezes, parece ser o conhecimento de Deus, outras a justiça, ou a graça divina concedida aos justos. Seja como for, há uma relação íntima entre todas estas formas. Sem o conhecimento de Deus, não é possível a justiça. Ora, enquanto a justiça implica a idéia do comportamento do homem perante o seu semelhante, na doutrina pagã não passa duma virtude de fundo muito variável; mas nos profetas, tem um sentido religioso. Ser justo é obter um voto favorável no tribunal de Deus. Em alguns casos a palavra chega quase a ter o significado de "prosperidade". Daí, o condizer com o sumo-bem, que vem a ser a graça divina ou seja uma bênção não só espiritual, mas material também.

O pecado é que impede de se procurar e atingir o sumo-bem; afeta o culto e a conduta dos povos; conduz à idolatria e afasta as almas do caminho do bem apontado por Jeová. Entre as personagens de maior destaque, merecedoras duma especial censura devida aos pecados cometidos, contam-se reis, políticos, sacerdotes, falsos profetas, comerciantes e chefes de família. Passemos agora a enumerar os principais pecados a que se faz alusão com freqüência:

1) PECADOS DO CULTO DE ADORAÇÃO. Estes pecados incluem a idolatria e todas as práticas que com ela andam associadas, a negligência no cumprimento dos deveres do culto, ou então uma atenção meramente externa com prejuízo do espírito da Lei (#Ml 1.13; #Os 6.6), e a profanação do sábado (#Jr 17.19 e segs.).

2) PECADOS DE ORGULHO. Estes conduzem à descrença e à indiferença em relação às ordens de Jeová, originando nos tempos difíceis uma confiança ilimitada nos chefes políticos e no poderio das nações, com desprezo absoluto pelo poder que vem do alto (#Jr 13; #Is 9.9).

3) PECADOS DE VIOLÊNCIA E OPRESSÃO. Os profetas defendem a causa das classes desprotegidas: os pobres, os órfãos, as viúvas, os escravos, e falam contra as prepotências dos ricos e dos poderosos.

4) PECADOS DE LUXÚRIA E INTEMPERANÇA. Estes pecados, que por um lado levam ao não cumprimento dos deveres, por outro incapacitam os homens de os cumprir devidamente.

5) PECADOS DE MENTIRA E DE IMPUREZA. Pelo primeiro desaparece a confiança política, comercial e social; pelo segundo, arruinam-se os fins da vida familiar.

Segundo os profetas, as virtudes máximas do crente resumem-se a três: o arrependimento, a fé e a obediência a Deus. O arrependimento, que os profetas tanto pregam, implicando conhecimento do pecado, supõe um pesar por havê-lo cometido, que ao mesmo tempo obriga o homem a voltar-se para o bom caminho de Deus, enquanto se desvia do caminho da iniqüidade. A confiança em Deus é a fonte de energias para o cumprimento do dever, é o guia nas horas incertas, o conforto nas horas tristes, a prosperidade da vida espiritual. O conhecimento de Deus como Aquele que executa a paz, a justiça e a bondade na terra e se compraz nessa execução, é o que se recomenda acima de tudo (#Jr 9.24). Em seguida, lembra-se que a prática da justiça, da misericórdia e da humildade (#Mq 6.8) deve ser também do agrado do homem em obediência à vontade de Deus.

Quanto aos deveres a cumprir, poder-se-ia resumir a doutrina dos profetas com as palavras de Malaquias, que são o fecho do Velho Testamento: "Lembrai-vos da Lei de Moisés, Meu servo, a qual lhe mandei em Horebe para todo o Israel, e que são os estatutos e juízos" (#Ml 4.4).

W. J. CAMERON

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